
A cidade de Brasília se prepara para receber, em novembro de 2026, um dos eventos mais relevantes do calendário arquitetônico ibero-americano: a XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo (BIAU). Sob o tema central “Cuidar a Vida”, a edição promete um espaço de reflexão crítica sobre o papel da arquitetura e do urbanismo diante dos desafios contemporâneos .
Uma Utopia Modernista como Palco de Debates
A escolha de Brasília como sede não é casual. Fundada em 1960 como uma aposta radical de construção de uma nova capital no interior do Brasil, a cidade encarnou uma ideia de futuro, modernidade e transformação social. Mais de seis décadas depois, aquela visão utópica segue deixando uma marca física, urbana e simbólica que condiciona a experiência diária de seus habitantes .
A proposta curatorial enxerga nesse histórico uma oportunidade única para observar a capital federal com um olhar crítico e complexo, capaz de reconhecer tanto suas virtudes quanto suas contradições . A Bienal ocupará espaços de alto valor arquitetônico, urbano e simbólico, como o SESI Lab, o Teatro Nacional Cláudio Santoro, a galeria Index e a Universidade de Brasília, ampliando sua presença por diversos pontos da cidade .
Uma Curadoria Internacional
O projeto curatorial da XIV BIAU é assinado por um time de arquitetos de Brasil, Espanha e Portugal, reunindo perfis diversos e complementares: Nuno Sampaio (arquiteto e diretor executivo da Casa da Arquitetura, em Portugal), Carlos Quintáns Eiras (arquiteto, professor e curador espanhol), Fernando Serapião (editor, investigador e crítico de arquitetura brasileiro), além dos arquitetos brasileiros Matheus Seco Ferreira, Daniel Mangabeira da Vinha (sócios-fundadores do atelier BLOCO Arquitetos) e Luciana Saboia (arquiteta, investigadora e professora da Universidade de Brasília) .
A equipe curatorial partiu de um eixo central: compreender a arquitetura como uma ferramenta capaz de cuidar da vida – uma ideia que se traduz em um programa estruturado que articula questões como clima, saúde e habitabilidade . A proposta venceu um júri internacional entre cinco finalistas, destacando-se pela coerência entre conceito e execução, além do caráter colaborativo construído a partir da articulação entre instituições do Brasil e de Portugal .
Os Eixos Temáticos da Bienal
A XIV BIAU está estruturada em torno de quatro eixos temáticos fundamentais, que orientam as discussões, as exposições e a seleção de projetos participantes :
Água
A arquitetura e o urbanismo devem assumir um papel ativo diante da água: não como mero recurso a distribuir, mas como sistema dinâmico que exige estratégias de captação, armazenamento, reutilização e adaptação a cenários de incerteza. Projetar com a água significa antecipar tanto sua escassez quanto seu excesso .
Vegetação
A vegetação não pode ocupar um lugar secundário. Sua presença deve transcender o ornamental para se constituir como infraestrutura viva: um sistema capaz de regular o microclima, melhorar a qualidade do ar, gerenciar o ciclo da água e articular espaços de relação .
Habitação
Em um contexto marcado pela necessidade de moradia e crescentes tensões sociais, a habitação se reafirma como campo de experimentação para novos modelos habitacionais mais flexíveis, adaptáveis e acessíveis, capazes de responder a realidades diversas .
Comunidades
A arquitetura tem a capacidade de articular relações sociais, econômicas e territoriais quando coloca a comunidade no centro do processo projetual. Projetos que transcendem o objeto construído para se tornarem ferramentas de mediação, explorando metodologias participativas e intervenções em contextos vulneráveis .
Além desses eixos, a Bienal conta com a colaboração de cinco referências da arquitetura ibero-americana, que atuam como colaboradores em cada uma dessas áreas: Loreta Castro Reguera (México) no eixo Água, Al Borde (Equador) em Comunidades, Solano Benítez (Paraguai) em Novos Territórios, Marcelo Rosenbaum (Brasil) em Vegetação e Inês Lobo (Portugal) em Habitação .
Oportunidades para Participação: Inscrições Abertas
A chamada para a XIV BIAU está aberta e organizada em três categorias de participação :
Panorama de Obras
Esta categoria valoriza projetos construídos na Ibero-América, concluídos entre 1º de janeiro de 2024 e 31 de dezembro de 2025, que apresentem contribuições relevantes nas áreas de relação com a água, integração da vegetação, inovação habitacional e fortalecimento das comunidades . O prazo para inscrição vai até 2 de julho de 2026 .
Prêmio Ibero-Americano à Trajetória
Distinção honorífica a pessoas ou coletivos ibero-americanos que tenham feito contribuições significativas no campo da arquitetura e urbanismo . As candidaturas podem ser apresentadas por associações profissionais, escolas de arquitetura, universidades, administrações públicas e organizações sociais, com prazo até 7 de julho de 2026 .
Publicações
Premia livros e publicações periódicas (impressas ou digitais) editados entre 2024 e 2025 que contribuam para divulgar novos conhecimentos vinculados aos temas propostos pela Bienal. O prazo final é 6 de julho de 2026 .
Os processos de avaliação ocorrem durante o mês de julho, e os resultados serão anunciados em setembro de 2026 .
Arquitetura como Política de Mudança
A proposta curatorial “Cuidar a Vida” vai além da simples exposição de obras. Ela convida a uma reflexão profunda sobre o papel da arquitetura diante das tensões crescentes entre crescimento urbano, transformação territorial e condições de habitabilidade .
Em um contexto marcado por mudanças climáticas, crise habitacional e desigualdades sociais, a Bienal se propõe a reconhecer, visibilizar e difundir práticas arquitetônicas e urbanas que estão contribuindo para renovar os marcos de desenvolvimento urbano, territorial e ambiental no âmbito ibero-americano .
A arquitetura, sob essa perspectiva, não é apenas uma resposta aos desafios contemporâneos, mas uma ferramenta capaz de antecipá-los, imaginando cenários possíveis, ativando processos transformadores e gerando valor coletivo .
Em sua 14ª edição, a BIAU reafirma seu papel como uma das principais plataformas de reconhecimento, debate e divulgação da arquitetura e do urbanismo na comunidade ibero-americana, desde sua criação em 1998 . Com Brasília como palco, a Bienal promete ser um marco de reflexão sobre o passado, o presente e o futuro das cidades – um convite para repensar como a arquitetura pode, de fato, cuidar da vida.








