
O que cabe em um país de dimensões continentais como o Brasil? Como traduzir, em um único espaço expositivo, a multiplicidade de climas, paisagens, culturas e modos de habitar que convivem — e tantas vezes se desconhecem — dentro de nossas fronteiras? A Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), em sua edição de estreia, ousa responder a essa pergunta não com um discurso, mas com uma experiência imersiva. Ocupando o Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, até 30 de abril de 2026, o evento propõe um percurso que é, ao mesmo tempo, geográfico e sensorial .
Uma Bienal com Alma Brasileira
A BAB nasce com um propósito claro: deslocar a arquitetura do campo estritamente técnico para o território da cultura, do pensamento e do repertório cotidiano . Idealizada pelos fundadores da Archa — Anna Rafaela Torino, Raphael Tristão, Lucas Aragão e Felipe Zullino — a iniciativa surge como uma plataforma cultural independente e sem fins lucrativos . O ponto de partida é um dado revelador: segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo CAU Brasil em 2022, apenas 9% das reformas no país contam com acompanhamento de arquitetos . A Bienal, portanto, não é apenas uma mostra; é um ato de democratização do acesso à arquitetura, mostrando ao grande público que ela está presente no cotidiano como ferramenta prática, cultural e sensível de transformação .
O Coração da Mostra: Pavilhões Inspirados nos Biomas
O grande diferencial curatorial da BAB é a organização dos projetos a partir dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal . Mais do que uma divisão geográfica, a escolha evidencia a relação fundamental entre natureza, clima e modos de habitar. Cada um dos 28 pavilhões, assinados por arquitetos de diferentes regiões do país, propõe uma leitura contemporânea do morar, articulando materialidades, memória e paisagem local .
A seleção dos projetos, realizada por meio de concursos públicos, buscou revelar novos talentos e expressões culturais de Norte a Sul do Brasil . O resultado é um panorama vivo da diversidade nacional, onde cada ambiente de 100 m² se torna uma narrativa sobre um território .
1. Amazônia: Arquitetura e Natureza em Diálogo
No pavilhão dedicado à Amazônia, a arquitetura se funde com a paisagem. O projeto Caminho dos Rios, do Studio Tuca (Pará), parte do mapa hidrográfico paraense para criar um percurso que atravessa Xingu, Tapajós, Guamá e Marajó . Já o espaço Casa Empate Mulheres Seringueiras (Acre), assinado por Marcelo Rosenbaum e Marlúcia Cândida, homenageia a cultura e a resistência das comunidades extrativistas . O uso de materiais como terracota e texturas orgânicas reforça a estética quente e conectada à terra .
2. Caatinga: O Sertão em Cena
As cores quentes e as texturas marcantes do semiárido ganham vida no pavilhão da Caatinga. Projetos como Do Sertão, ao Verde e Mar (Paraíba), de Fabiano Lins, buscam equilibrar as diferentes paisagens do estado — do sertão ao litoral — sem que uma identidade se sobreponha à outra . A Casa de Veraneio, do arquiteto potiguar Rodra Cunha, traduz a essência do litoral nordestino, com um traço que valoriza a tradição e a memória, integrando obras de arte regionais ao ambiente . O projeto Relicário de Voinha (Sergipe), do Mangaba Estúdio, e a Casa do Mastro (Bahia), da Vida de Vila, completam a mostra com olhares que celebram a cultura e a afetividade do Nordeste .
3. Cerrado: Força e Diversidade Paisagística
O Cerrado, com sua vegetação e tons terrosos, é representado por projetos que evocam a força da paisagem do Brasil central. A Casa de Amélia (Goiás), da Bendito Traço Arquitetura, e a Casa Adélia Prado (Minas Gerais), de Marina Reis Arquitetura, são exemplos de como a arquitetura pode traduzir a cultura local . O Modernismo Habitado (Distrito Federal), do escritório Debaixo do Bloco, propõe uma reflexão sobre o legado da capital e os novos modos de habitar o Plano Piloto .
4. Mata Atlântica: Diversidade em Tons e Texturas
A Mata Atlântica, bioma que abriga algumas das maiores cidades do país, é representada por projetos que exploram a diversidade de seus estados. A Casa que Dança (Paraná), do Boscardin Corsi Arquitetura, cria uma narrativa sobre o habitar paranaense a partir de um personagem fictício e de referências diretas a arquitetos como Vilanova Artigas e Jaime Lerner . O projeto Tão Paulista Quanto a Avenida, dos Gêmeos Arquitetura, e o Loft da Escritora, de Gabriel Rosa, representam a urbanidade paulista . Já a Casa Corcovado (Rio de Janeiro), de Paula Martins Soares, traduz a energia carioca em um jogo cromático vibrante .
5. Pampa: A Atmosfera do Sul
O pavilhão do Pampa traz a atmosfera sóbria e a paisagem aberta do sul do país. A Querência Amada (Rio Grande do Sul), do Studio Carbono em parceria com a Matte Arquitetura, explora tons terrosos e referências à cultura campeira .
6. Pantanal: Biodiversidade e Sofisticação
Inspirado pela paisagem alagada e pela rica biodiversidade, o pavilhão do Pantanal apresenta o Loft da Preservação Cuiabana (Mato Grosso), do escritório Ohma, e a Casa Nandejara (Mato Grosso do Sul), da DNA Arquitetos. Os projetos exploram materiais naturais, cobogós e composições que dialogam com a natureza exuberante da região .
Inovação e Tradição em Diálogo
Para além dos pavilhões temáticos, a BAB se destaca pela inovação. Na área externa do Pavilhão, o público pode visitar a Casa Superlimão, uma estrutura produzida por impressão 3D em concreto, em parceria com a startup Portal 3D e o Digital Construction Lab da USP . Os pilares, inspirados na estrutura do galho da folha de bananeira, são ocos e leves, reduzindo o consumo de material e melhorando o desempenho térmico . O projeto revisita saberes construtivos tradicionais, como os pisos elevados das palafitas, e os coloca em diálogo com as tecnologias atuais .
Uma Experiência para Todos
A BAB foi concebida como uma plataforma de mediação cultural e educação, com mais de 20 mil m² de área expositiva . O evento conta ainda com o Pátio Metrópole, uma área externa que simula uma “cidade experimental”, com instalações, ativações de marcas, arena de conteúdo, café, restaurantes e programação cultural aberta ao público . A entrada no espaço externo é gratuita, reforçando o compromisso da Bienal com a democratização do acesso à arquitetura .
A Bienal de Arquitetura Brasileira 2026 é, em sua essência, um convite para reconhecer a arquitetura como um bem cultural — algo que atravessa a vida das pessoas muito antes e muito além da obra . Ao reunir em um só lugar os múltiplos “Brasis” que habitam nosso território, a BAB nos lembra que a diversidade não é apenas um dado geográfico, mas uma ferramenta essencial para pensar o futuro da nossa arquitetura e das nossas cidades.








